Testemunhos

A voz de um Catequista

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Reverendo senhor padre Vítor José Mira de Jesus  e estimados jovens da diocese de Leiria-Fátima que integram esta equipa missionária. Permitam-me, em nome da comunidade deste centro, exprimir com emoção a alegria da vossa estadia neste centro do Uquende. A vossa simpatia e amor aos irmãos fez com que deixásseis a vossa terra, a família, amigos e mais… de modo particular condições diferentes das nossas. Percorrendo milhares de quilómetros, cumprindo a missão salvífica, submetendo-se em culturas e tradições diferentes. Esta atitude é gesto de propagar o Evangelho.
Jesus dizia num dos evangelhos que ides ao mundo inteiro anunciar a Boa Nova a todas as nações; o mesmo fizestes. Os sete dias que compartilhámos ao longo deste tempo marcou-me muito, sobretudo a formação bíblica que se deu aos catequistas, promoção feminina às senhoras, formação aos professores do primeiro nível e alguns encontros com crianças destas aldeias. Tudo isto foi mais um passo na nossa vida cristã e uma experiência inesquecível.
E por outro lado, lamento o tempo da vossa permanência: foi menos do que desejávamos. Mas em pouco tempo recebemos muita ajuda para a nossa vida espiritual e social. Por isso esperamos mais ajuda deste simpático povo de Leiria-Fátima, espiritual e material.
Reverendo P. Mira a comunidade do Gungo anseia pela vinda de uma equipa missionária de Leiria-Fátima, com a presença de um padre, conforme o plano do projecto de geminação.
É certo de desde 1999, após a retirada dos padres Matias e Dário, que colaboraram na escola do II Nível do centro do Uquende, nunca mais tivemos a celebração da Eucaristia nesta comunidade.
(…)
Com a vossa presença merecemos o que nos tem sido difícil encontrar: o sacramento da Reconciliação e a Eucaristia, muito mais os mais velhos que não se podem deslocar.
Outrossim, não deixo de louvar as homilias catequéticas do P. Vítor, com que ao longo deste tempo nos beneficiou; estas deram mais um impulso na nossa caminhada de dia-a-dia.
Ao terminar, com muito gosto clamo: agradeço tudo o que fizestes por nós. Em nome da comunidade, o meu muito obrigado.

Feito em Uquende aos 22 de Agosto de 2004.
O catequista geral e coordenador da zona pastoral do centro Chipinga, Celestino Mulungo.
Mensagem lida no fim da missa dominical que encerrou as actividades desenvolvidas ao longo de uma semana, na aldeia do Uquende, um dos três locais do Gungo em que estiveram os voluntários do Projecto ASA 2004.

 

“O Homem sonha, Deus quer, a obra nasce”

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Costuma dizer-se: “O Homem sonha, Deus quer, a obra nasce”. Tem sido assim em todo o projecto do Grupo missionário e também no que se refere à construção da nossa casa.
A fase de projecto durou vários meses e contou com a ajuda e contributo de muitos, mas é claro que a fase da execução da obra é que se torna a parte mais vistosa.
No princípio era um morro arredondado e o morro arredondado foi transformado num terreno nivelado, delimitado, cercado e pronto a construir. Podemos dizer que a construção da casa, propriamente dita, começou a partir de 30 de Janeiro, dia em que foi feita a Bênção da Primeira Pedra.
A partir dessa data foi o enchimento dos alicerces com a colocação dos espigões que haveriam de receber os pilares e a consequente montagem da estrutura. Foi como um esqueleto que erguemos naquele local. A etapa seguinte foi a colocação da chapa do telhado dando a sensação de se estar a construir a casa pelo telhado. Isto foi causa de espanto para os trabalhadores e para quem vai passando.
Depois iniciou-se o levantamento das paredes para preencher a estrutura e, do esqueleto de ferros brancos com chapéu igualmente branco; vão surgindo paredes de tijolo com aberturas para janelas e portas.
As paredes mais ou menos direitas foram rasgadas para se fazer a instalação eléctrica e canalização mas rapidamente se taparam os roços. Neste momento estamos na etapa de reboco interior e exterior.
Até ao presente já temos as paredes de dois quartos com casa de banho, sala de visitas, sala de jantar, cozinha, dispensa e casa de banho de serviço. É o indispensável para podermos usar a casa e está em acabamentos. Nesta primeira fase faremos ainda mais dois quartos e uma sala que, juntamente com um dos quartos, será destinada a quem tomar conta da nossa casa.
As dificuldades têm sido muitas. Os materiais que é necessário comprar têm que vir de Luanda quase na totalidade; a água vem em cisterna mas depende da chuva (se há chuva não há água) e das dificuldades do motorista; a areia tem de esperar pelas autorizações de exploração e nem sempre está disponível para o fornecedor; a brita industrial depende das máquinas que avariam e dos planos e promessas que nem sempre se cumprem e até já nos obrigaram a usar brita artesanal; a betoneira que tínhamos avariou… Houve tempos em que era a assiduidade do pessoal… Mas contra tudo isto vamos lutando pois temos um objectivo: construir Ondjoyetu (a nossa e vossa casa).

P. David Nogueira

Uma nova etapa da Missão

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Passaram dois meses desde a nossa chegada a Angola. Da equipa da linha da frente, inicialmente constituída por 6 elementos, já partiu para Portugal a Jacinta (após ter terminado o projecto de um mês), e a Inês (após ter realizado dois meses de missão). Agora com um grupo mais pequeno (4 elementos), conforta-nos o facto de sabermos que continuamos a contar com o apoio de quem partiu.
Depois de concluída a obra da casa,  graças ao grande esforço de todos os que de algum modo colaboraram para a sua concretização, ocupámo-nos a colorir a pouco e pouco o seu interior. Como que por magia, o que inicialmente eram apenas paredes brancas, foi ganhando a forma de uma casa acolhedora a que chamamos Ondjoyetu.
Estes dois meses passados foram de extrema importância, pois tivemos oportunidade de estar em 3 locais do Gungo, onde a população dos vários centros se reuniu por períodos de uma semana de formação. Este tempo permitiu-nos mergulhar um pouco mais fundo no que é a realidade actual deste povo. Através desta convivência, fomos tomando consciência das suas preocupações e necessidades.
Agora, está na hora de transitar para uma nova etapa da missão, onde é necessário arranjar estratégias para enquadrar o projecto missionário ao ritmo de vida do povo. Só deste modo, será possível conjugar a formação com as rotinas necessárias ao dia-a-dia de quem não pode parar.
Percebemos que as formações não poderiam ser realizadas apenas por zonas, mas seria necessário chegar a todas as aldeias, evitando deste modo as grandes deslocações até nós. Verificámos igualmente que seria necessário realizar formação por períodos de tempo um pouco maiores. Assim, poderemos abordar temas mais específicos e de uma forma mais profunda. Para começar, pensamos que 15 dias será o ideal.
Tomámos consciência que a culinária é uma das áreas onde seria importante trabalhar. Pela natureza dos seus conteúdos práticos, uma formação deste tipo poderia rapidamente dar frutos, respondendo de forma directa a alguns problemas sentidos a este nível. A ausência de diversidade no tipo de alimentação realizado, em que o funge predomina sobre todo o resto, dá muitas vezes origem a diferentes problemas de saúde que poderiam ser evitados através de uma alimentação adequada.
A dificuldade na leitura e escrita foi igualmente um problema manifestado por todos. Os tempos de guerra não permitiram coisas essenciais como ir à escola, originando grandes lacunas neste tipo de conhecimentos imprescindíveis na sociedade actual.
Para começar, estas vão ser as duas áreas de formação em que vamos trabalhar com um grupo de aproximadamente 50 pessoas (30 na alfabetização e 20 na culinária).
As necessidades referidas nas diferentes aldeias, variam consoante a especificidade de cada uma. Deste modo, todas as formações serão adequadas às mesmas. Assim sendo, futuramente serão áreas de formação: costura, primeiros-socorros, higiene e nutrição, catequese, entre outras.
  A pouco e pouco, nunca esquecendo de respeitar o ritmo próprio deste povo, vamos caminhando juntos, atingindo pequenas metas que, no seu conjunto, nos irão levar mais longe!

Mana Sara

“Ser Jovem no Gungo - Vale a Pena Sonhar”

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Dizem que o sonho comanda a Vida! Ser jovem implica sonhar para assim poder comandar a vida. E é com o coração cheio de sonhos que vamos continuando a dar passos no caminho que é a juventude.
Temos continuado a realizar os encontros mensais para os jovens de toda a missão e em particular, no tempo da Quaresma, que acabámos de viver, os jovens foram convidados a fazer uma análise sobre a sua vida, sobre os seus objectivos e sobre as mudanças que são necessárias fazer para alcançar uma vida nova… afinal de contas, este era o tempo oportuno. Durante este período fomos convidados a calar os batuques, a fazer silêncio para assim escutar a voz que nos fala lá dentro. E foi no domingo de ramos, marcado pela celebração do Dia Mundial da Juventude, que alguns jovens representantes da missão tiveram oportunidade de participar num encontro diocesano de jovens, na Gabela, uma outra cidade que pertence à diocese do Sumbe. Neste encontro foi possível a partilha de experiências com jovens de outras partes da diocese e também o crescimento da cumplicidade e união entre os jovens do Gungo. A quaresma estava já na sua recta final e mais uma vez era importante fazer sentir actual a sua mensagem na vida de cada um dos jovens. Porque o que aconteceu há mais de 2000 anos atrás continua bem presente na vida dos nossos jovens: a injustiça, os vícios, o pecado, que precisam de uma “metamorfose” da nossa vida.
No final da Semana Santa, congregámos os jovens de toda a missão para celebrarem uma Páscoa Jovem, cheia de alegria e de esperança. Renovados pela alegria da ressurreição, os jovens puseram as mãos no batuque e os pés a dançar para assim manifestarem a sua alegria: “Aleluia, Kilisitu Wapinduka” (Aleluia, Cristo Ressuscitou). E com a alegria no coração despedimo-nos com um “até ao próximo encontro”, que reunirá de novo todos os jovens.
Outra realidade que vamos observando é a necessidade que alguns jovens do Gungo sentem em se deslocarem para a cidade: uns para estudar, outras para trabalhar e assim conseguirem melhores condições de vida. No entanto, manifestaram vontade em participar nas actividades juvenis que vão sendo propostas. E foi neste sentido que começámos a sonhar com a ideia de reunir estes mesmos jovens para assim nos podermos encontrar, reflectir e conviver. E esta actividade foi realizada no passado dia 11 de Abril, com a presença de 30 jovens com muita vontade de aprender, de crescer e de partilhar. O tempo voou e ficou o desejo de continuar com estes encontros, afinal “Ser Jovem no Gungo” é para todos os jovens do Gungo, independente do sítio onde se está… o que é importante é continuar a abraçar o sonho, com vontade de avançar e pôr o mundo a girar… afinal…. Vale a pena sonhar!

Maria Inês Pereira

Deus também mora aqui

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Pela 3ª vez regressei a Angola e à Missão do Gungo! Voltei a esta família que me acolheu no coração e que aprendi a amar. Logo que pisei terra de Angola e que senti aquele bafo quente a dar-me as boas-vindas, senti que estava a regressar a casa, de onde havia saído ainda não há três meses. Depois, ao chegar à Ondjoyetu na companhia destes meus filhos, eu estava a regressar ao meu lugar; mas voltar a estar no Gungo, viver de novo na simplicidade das nossas casas de adobe, na imensidão das montanhas majestosas, foi realmente voltar ao local onde passei a pertencer do coração.
Estar de novo no meio deste povo, é simultaneamente uma sensação de tranquilidade e inquietação; de bem-estar e frustração.
Tranquilidade e bem-estar porque me sinto rodeada de Amigos verdadeiros, de gente que manifesta a sua alegria e reconhecimento pela minha presença aqui no meio deles. Porque deixei para trás a correria da vida e um mundo onde impera «o ter» em vez de «o ser» e passei a viver ao ritmo natural das coisas em que de nada vale forçar os acontecimentos.
Inquietação e frustração porque olho para este povo e vejo as suas carências, o caminho que falta percorrer para alcançarem as mínimas condições de uma vida digna! Tantas crianças que não vão à escola, que não têm direito a quaisquer cuidados de saúde, às vacinas que as poderiam proteger de doenças por vezes mortais, a uma alimentação equilibrada, alguns até, que não têm direito a ser cidadãos desta terra onde nasceram porque não têm qualquer documento que os identifique como tal…
Tantas mamãs que têm filho atrás de filho para depois os verem adoecer e morrer sem meios para fazer seja o que for para os salvar!
As habitações sem  condições de conforto e higiene…  A falta de água potável, a alimentação sem os nutrientes necessários a uma saúde equilibrada!...
Deus, que me ofereceu tantos dons, chamou-me a trabalhar no meio deste povo que nada tendo, consegue partilhar a sua vida, a sua alegria, a sua boa disposição e, até, a sua pobreza. Ele mostrou-me que também mora aqui nestas pobres casas de adobe ou de capim. Por isso aqui estou a partilhar a minha vida. Em troca vou recebendo sorrisos e também o amor, a estima, o reconhecimento de gente tão simples e de alma tão grande!

Angélica

Umas Férias Diferentes

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Regressei ao Gungo e afirmo: ali faz-se Missão!
A nossa Diocese está ali a construir uma Igreja viva!
Em 2002 fiz uma experiência extraordinária de 2 meses de trabalho missionário em Angola, concentrado sobretudo entre a cidade do Sumbe e de Luanda.
Mas, ainda assim, o momento alto daquela missão foram os curtos 2 dias que a equipa missionária passou na Chipinga (Gungo). Uma experiência verdadeiramente singular que nos ajudou a perceber não só a necessidade, mas sobretudo a vontade que aquela gente tinha de nos receber e à mensagem de Esperança que lhes levávamos. Estava eu longe de imaginar que aquela simples visita de 2 dias à Chipinga em Agosto de 2002 era o primeiro passo de um grande projecto que agora se consolida.
Passados 8 anos estava agora a regressar ao Gungo. A primeira impressão, enquanto ainda na cidade, foi que tinha entrado num país completamente diferente. Contudo, à medida que entrava pelas picadas do Gungo adentro, fui reconhecendo as feições de um ou outro catequista que conhecera em 2002, que também me iam identificando e recordando esse momento e os missionários de então. Aí concluí que efectivamente estava no mesmo país, com as mesmas pessoas que me ajudavam novamente a concluir: aquele Agosto de 2002 foi o momento que recolocou na alma desta gente a alegria de se sentirem acolhidas e embalou a nossa Diocese para aquilo que é hoje esta Missão.
E eu estive lá!
 Desta vez não foram 2 meses, mas apenas 2 semanas incompletas, mas muito intensas. Foram as minhas férias. A certa altura dei comigo a rezar: “- oh Deus, dá-me um coração disponível para acolher tudo o que me queiras fazer experimentar!”
Sobretudo Deus ofereceu-me uma experiência de encontro. Foi o encontro com gente na qual encontrei uma intensidade de vida interior verdadeiramente inexpressável. Não posso afastar da memória o avô Filipe, o nosso cozinheiro dedicado, atencioso, experimentado por uma vida de dor e sofrimento desumano, sempre com uma serenidade no olhar que só pode vir de uma profunda intimidade com o Senhor; ou o enorme catequista pai Armando, no qual encontramos a fortaleza de uma fé profundamente esclarecida, pronta a ser transmitida em qualquer faculdade de teologia (penso não exagerar nas palavras), um homem inteiro para quem o Amor a Deus e ao próximo como Cristo viveu não é uma utopia... e isto sentia-se na sua atenção serena a tudo e a todos; e tantos outros que poderíamos nomear.
Depois, claro, fiz a experiência de encontro com a equipa missionária que tão excelsamente me acolheu: a mãe Angélica, as manas Inês, Elsa, Teresa e Maria, sem esquecer a Lina. Foi uma constatação inenarrável da qual não consigo dizer muito mais que isto:
- não é possível ter uma ideia minimamente aproximada do trabalho que a nossa Diocese está a fazer naquela porção do povo de Deus, se não se for lá, se não se sentir ali mesmo a alegria, a disponibilidade, a ousadia, a coragem, o profundo sentimento de fé que anima os missionários que nós, Diocese de Leiria-Fátima, temos ali em nosso nome! A nossa Diocese está ali a salvar vidas humanas (literalmente), a propagar a fé, a promover a dignidade da pessoa humana, a formar homens e mulheres com valores; a nossa Diocese está a oferecer aos jovens ou menos jovens missionários que para ali envia, um profundo crescimento na fé, na esperança e na caridade cristã.
Fui testemunha disso e atesto-o com um coração feliz por o ter podido verificar e orgulhoso por sentir que faço parte desta Igreja particular que não se fecha em si, mas que se abre a uma Igreja Católica e Universal.
Toda a Diocese tem motivos para se orgulhar e alegrar.

Pe  André Batista

No Coração da Missão

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Aquele fim de semana de Agosto no Uquende, Missão do Gungo, não esquece. Tudo é diferente: a paisagem rara, o esforço para chegar, a curiosidade face ao diferente... mas, sobretudo, o espírito com que se vai, o calor interior de ir para alguém que se não conhece e espera ansiosamente. Se pudesse entrar na alma e nos sentimentos dos que lá estão e esperam, descobriria os corações mais pacificados do mundo e, ao mesmo tempo, mais ansiosos e sobressaltados pelo desejo do encontro, que é com Deus e com os seus mensageiros.
Ainda nos dias de hoje há lugar para a missão e realiza-se a missão, junto dos que estão perto e junto dos que estão longe. Na prática há algumas diferenças tanto no que toca ao entusiasmo do missionário como à receptividade dos que são evangelizados. Que diferença, por vezes, no ardor de quem parte e na alegria dos que recebem! No Gungo, experimenta-se, por um lado, o ardor de quem tem um amor lá dentro a Deus e aos homens sem que possa calá-lo ou fechá-lo – tem de partir e tem de o dar; por outro lado, aquilo a que a Bíblia chama a sede de Deus, aquela sede dos dias tórridos, acumulada, que quase não deixa respirar nem viver – tem de ser saciada.
O Gungo fez-me ver o que significa o “ide e ensinai todos os povos” e experimentar o que é a verdadeira “sede de Deus”.

Considero que o grupo missionário Ondjoyetu e a geminação (com intuitos missionários) das dioceses de Leiria-Fátima e do Sumbe são um dos mais significativos acontecimentos da Igreja Diocesana dos últimos tempos. São algo que está no coração da Igreja por estar no coração da Missão universal de Cristo.
As catequeses de toda uma vida acerca da missão ad gentes, porventura com pouco sucesso, têm ali uma concretização que, por isso, ultrapassa o âmbito do discurso, do plano de intenções, do desejo que se tem ou do voto que se faz. Há ali uma sinal visível da Igreja em missão, há pessoas que partem e se dão, há jovens e adultos que assumem com sacrifício para a própria vida, há sacerdotes que lançam as mãos ao arado sem olhar para trás.
Ao contrário do que podemos pensar à distância de uns milhares de quilómetros, o romantismo da aventura cai por terra logo à saída do avião, pois a realidade dura impõe-se imediatamente: dificuldades, carências de todo o género... A critica sobre o assistencialismo de quem vai de fora cai também diante dos rostos que esperam, que sofrem, que se alegram numa gratidão sem fim diante do simples facto de alguém pensar neles e ir ao seu encontro somente por causa deles. A catequese, a evangelização, os grupos de reflexão e oração, a liturgia, a caridade ocupam e oferecem o sentido a uma presença missionária.

Agradeço aos que me abriram o caminho para chegar ao Ondjoyetu e ali me levaram pela mão a conhecer o coração da missão.

D. Virgílio Antunes

“Ndapandula Tchiua!” (Muito obrigado!)

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Foi com estas palavras que D. António Marto agradeceu o caloroso acolhimento que foi recebendo nos vários locais do Gungo que visitou e que sempre lhe mereceram um forte aplauso. No final da visita que D. António Marto fez a Angola, e mais concretamente à Missão do Gungo, colocámos-lhe algumas questões cuja resposta acaba por ser um balanço desta memorável visita.

Ondjoyetu (O) - Porque motivos se deslocou recentemente a Angola?
D. António Marto (A.M.) - O que me levou propriamente a Angola foi o insistente convite do grupo missionário Ondjoyetu que está a trabalhar na missão do Gungo, diocese do Sumbe, para os ir visitar e poder ver a sua acção, levar-lhes o apoio afectivo da Diocese e a confirmação eclesial do bispo.
(O) - Sabemos que viajou um pouco por este grande país. Como se sentiu acolhido e com que impressão ficou?
(A.M.) - Como só já encontrei lugar no voo de 1 de Janeiro, tive de ir uma semana mais cedo que o previsto. D. Benedito, bispo do Sumbe, com os Padres Vitor Mira e David Nogueira, da nossa diocese, arranjaram um programa para eu conhecer uma parte de Angola durante essa semana. Fui então conduzido pelos nossos padres, de jipe, a visitar algumas dioceses de Angola: Luanda, Viana, Dalatando, Malange e Huambo. Foi-me possível contactar com os bispos destas dioceses, visitar algumas missões e partilhar a vida com alguns missionários (as), celebrar nalgumas comunidades e visitar alguns lugares turísticos. Em toda a parte fui acolhido com a hospitalidade fraterna e festiva, tipicamente africana.
No Huambo até pude presidir à abertura do Ano Jubilar do 50º aniversário do Santuário de Nossa Senhora de Fátima local. Impressionou-me a alegria dos missionários, o acolhimento e a cumplicidade recíprocos quando se encontram e a paixão com que vivem a missão.
(O) - Certamente reconheceu algumas diferenças entre a Igreja em Portugal e em Angola. Neste contexto, que mais o marcou?
(A.M.) - As diferenças são as que se notam entre a Igreja na Europa e a Igreja em África. Frente a uma fé com traços de cansaço na Europa, encontrei uma impressionante vitalidade da Igreja em Angola, a alegria festiva com que se celebra a fé sem estar a olhar para o relógio, a paixão pelo Evangelho como fonte de dignidade e promoção humana, a reconstrução da alma de um povo que precisa de sarar as feridas deixadas pela guerra, a organização ministerial das comunidades que não dependem só do “padre faz-tudo”. É notável o papel dos catequistas visitadores responsáveis pela animação espiritual dos tantos pequenos bairros onde o missionário não pode ir sempre.
(O) - Um dos momentos importantes foi a presença na diocese geminada do Sumbe. Que balanço faz deste processo e como viveu essa presença na diocese irmã?
(A.M.) - Na diocese do Sumbe estive uma semana. Era a principal razão da visita a Angola. No Sumbe tive a ocasião de viver e celebrar a geminação que nos une como intercâmbio e partilha de pessoas, de dons, de experiências missionárias e de bens. Aí concelebrei na catedral com D. Benedito em acção de graças pela geminação dando-lhe uma repercussão diocesana para ser mais conhecida, amada e apoiada por todo o povo de Deus. Participei também na Assembleia diocesana com uma intervenção doutrinal e presidindo à celebração eucarística.
Um momento alto foi a inauguração da Casa-Mãe ou de apoio de rectaguarda do nosso grupo missionário Ondjoyetu com a celebração eucarística, a bênção da casa e o almoço festivo com muitos convidados.
Finalmente, em diálogo com D. Benedito fizemos um balanço positivo desta geminação como um enriquecimento mútuo para ambas as dioceses. Também nós em Leiria temos um padre do Sumbe a trabalhar aqui pastoralmente.
(O) - Nos dias em que esteve mais na diocese que momento ou acontecimento mais o marcou e porquê?
(A.M.) - O momento que mais me tocou e marcou – porque deixou mesmo marcas profundas – foi a visita à Missão do Gungo. Era esse o grande objectivo da minha ida a Angola. Quis fazer a mesma experiência missionária que a equipa que lá está. Posso dizer que foi a minha primeira experiência missionária em África naquelas condições e naqueles moldes e modos. Será inesquecível.
(O) - Que impressões colheu da sua visita ao Gungo? Como viu esta comunidade?
(A.M.) - Receberam-me como se fosse o seu bispo. Um dos catequistas que me saudou, creio que o Celestino, disse que não havia palavras para exprimir toda a alegria e emoção do povo ao receber o bispo de Leiria-Fátima do grupo missionário. Eu também digo que não tenho palavras que exprimam toda a riqueza e beleza da experiência de fé que lá vivi durante quatro dias. Nunca esquecerei a festa e o carinho com que me receberam nos vários lugares por onde passei. Vi um povo cheio de alegria e entusiasmo pela sua fé, sedento do Evangelho de Cristo, desejoso de crescer na fé e na promoção humana; um povo muito carenciado num país rico e muito necessitado do apoio da Igreja e dos missionários.
Uma das imagens lindas e encantadoras que trago gravada era a saudação espontânea das crianças que acorriam à passagem do jipe dos missionários (o “cavalinho branco”): “padre, chiao eh...”!
(O) - Que acha da presença da equipa missionária da diocese de Leiria-Fátima no Sumbe, mais concretamente ainda no Gungo?
(A.M.) - Gostei de sentir a alegria, o entusiasmo e a paixão com que realizam a sua actividade missionária no meio de tantas dificuldades. Depois de dias intensos e de cansaço, de viagens duras e fatigantes (a “picada”, Senhor!) vi-os sempre alegres e sorridentes, sem uma queixa.
Pude apreciar a importância do seu trabalho nos vários campos da evangelização, da educação, da saúde, da formação profissional, do apoio à maternidade, da pastoral da criança, da culinária etc. E fiquei satisfeito em ver reconhecida essa importância por parte das populações e das autoridades locais. A equipa missionária está a realizar um trabalho notável e imprescindível. Só visto! Deus cumule de bênçãos todo este trabalho.
(O) - Como bispo da diocese de Leiria-Fátima que mensagem quer deixar aos seus diocesanos no fim desta visita missionária a Angola?
(A.M.) - Considero esta visita missionária uma bênção para mim e para a diocese. É uma interpelação à nossa Igreja local a manter-se aberta à universalidade da fé católica e às necessidades dos irmãos, a não ficar fechada sobre si a contemplar o seu umbigo. Este trabalho missionário merece todo o nosso apoio.
Espero que suscite um voluntariado generoso no clero e nos leigos. Deixo aqui um agradecimento muito profundo a D. Benedito e a cada um dos membros da nossa equipa missionária, P.e Vitor Mira, P.e David, Ana Sofia, Inês e Amândio, que me proporcionaram esta rica experiência.

Entrevista com D. António Marto publicada na edição extra do jornal Ondjoyetu